
Aos 22 anos, Camilly André vive um momento que parecia distante da realidade de uma jovem criada no interior da Bahia. Com apenas três anos de caminhada na lambada, ela desembarcou na Europa para atuar como professora no Croatia Lambada Camp and Marathon, realizado em Tisno, na Croácia. Na bagagem, levou não apenas a dança, mas também a memória afetiva de Itabela e a força cultural de Porto Seguro.
Disciplina que vem da infância
Filha do professor Elisvaldo, Camilly cresceu em Itabela até os 18 anos. Durante a infância e a adolescência, destacou-se pela dedicação aos estudos, pelo esporte e pela participação em projetos locais. Foi medalhista em mais de quatro olimpíadas de matemática, atleta de basquete, participou de campeonatos e conquistou o primeiro lugar no Itabela ON. Antes de ser reconhecida na dança, já demonstrava disciplina, coragem e determinação para ir além.
A ligação com a arte surgiu cedo, de forma espontânea. A jovem conta que sempre gostou de dançar, mas que, em Itabela, havia poucas opções de escolas de dança. Chegou a tentar o balé, porém não se identificou com a rigidez do ritmo. Foi somente aos 18 anos, durante viagens frequentes a Porto Seguro para acompanhar a avó, que ela se encontrou na lambada.
Naquele mesmo período, enquanto escolhia o curso superior após o Enem, tomou uma decisão que mudaria sua vida: resolveu morar em Porto Seguro para cursar Engenharia Sanitária e Ambiental na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e, ao mesmo tempo, ficar mais próxima da dança que começava a tocar sua alma.
“Eu não imaginava que viveria trabalhando com essa arte”, recorda.
A identidade da "Princesinha"
A lambada, para Camilly, deixou de ser apenas um hobby e tornou-se identidade, profissão e estilo de vida. Ela define o ritmo como algo que habita seu corpo e sua história. Porto Seguro, reconhecida como o berço da lambada, foi o lugar onde a itabelense se moldou artisticamente.
Foi nesse caminho que nasceu o apelido “Princesinha da Lambada”. Segundo a artista, não se trata de um título formal, mas de uma forma carinhosa como passou a ser chamada por sua postura, pela flor no cabelo, pelo jeito de se vestir e, principalmente, pela maneira de dançar sorrindo. O apelido também dialoga com sua história familiar, já que foi filha única por 17 anos e sempre foi muito paparicada pelos pais.
O passaporte para o sonho
A oportunidade internacional surgiu em um evento de lambada em Maraú, onde Camilly conheceu Guido, organizador de festivais na Europa. A partir daquele encontro, nasceu uma amizade marcada por incentivo e esperança. Ambos costumavam dizer que, um dia, ela estaria no evento europeu. O sonho, que parecia distante devido aos custos de uma viagem internacional, começou a ganhar forma de maneira inusitada.
Em um encontro posterior em São Paulo, Guido sugeriu que gravassem um vídeo como se ela já estivesse confirmada no evento, com o objetivo de tentar viabilizar patrocínios e apoios para a ida. A estratégia deu certo, e Camilly foi oficialmente contratada para lecionar na Croácia.
“Ele conseguiu, eu tive coragem de vir sozinha, e estou aqui vivendo o meu sonho”, conta a jovem, diretamente de Tisno, onde ministra aulas para congressistas de várias partes do mundo.
Para ela, pisar em outro continente levando a cultura da lambada tem um significado profundo: “Tenho muito orgulho da minha coragem de ter enfrentado essa caminhada. Orgulho por levar o nome da cidade onde fui criada enquanto pessoa, Itabela, e o nome da cidade onde me formei como artista, Porto Seguro”.
Desafios no caminho e ascensão meteórica
A caminhada, porém, não foi livre de obstáculos. Camilly relatou que teve problemas graves com o voo de ida, que foi cancelado e remarcado em cima da hora. Sozinha, lidando com outro idioma e diante de um imprevisto delicado no aeroporto, ela precisou manter a calma para encontrar soluções. Ainda assim, manteve o bom humor e a tradicional resiliência baiana: “Nada que um jeitinho brasileiro não resolva. Estou muito feliz e agradecida”.
Apesar do pouco tempo de carreira profissional — apenas três anos —, Camilly já acumula um currículo de peso. Ela foi contratada pelo Brazil Lambada Experience (2024), pelo EmbraZouk (2025 e 2026) e pelo Salvador Zouk Congress (2026). Agora, com a projeção internacional na Croácia, ela consolida sua presença no cenário global da dança e já está com a agenda aberta para contratos em 2027.
Dança é liberdade
Como professora, o objetivo de Camilly é transmitir aos alunos europeus a lambada como sinônimo de liberdade e leveza. Para ela, a dança não deve ser rígida ou presa a padrões técnicos excessivos. Sua formação veio da vivência pura, da escuta do corpo e da prática com diferentes parceiros.
“A dança é liberdade e leveza. Na dança não existe certo e errado, existe saber se adaptar a qualquer parceiro”, explica.
A trajetória da artista também carrega um forte sentido social. Ela lembra com carinho de quando participou de um projeto de dança de salão no Colégio Estadual de Itabela, idealizado por Nairo Ramos, onde viu de perto o potencial de transformação da dança na vida de adolescentes locais.
Para os jovens de Itabela que sonham com a arte, mas ainda duvidam do próprio potencial, a mensagem da professora é direta e encorajadora:
“Confiem em vocês, sejam itabelenses sem vergonha de sua origem, botem a cara para o jogo. O mundo da dança tem muito julgamento, mas é importante aprender a dançar sorrindo, com felicidade. A felicidade em dançar ninguém no mundo pode roubar de vocês.”
Valorização cultural e gratidão
Camilly também defende uma maior valorização da lambada na nossa região. Para ela, embora Porto Seguro tenha o ritmo reconhecido como patrimônio cultural imaterial, ainda falta tornar essa cultura mais pública e acessível para a comunidade e para os turistas. Ela recorda com orgulho de quando levou a lambada para uma praça pública em Itabela e recebeu o carinho imediato do povo.
Ao olhar para trás, a jovem faz questão de agradecer à rede de apoio que a sustentou. Entre os principais incentivadores, cita a mãe, Cristiane, além de amigos e parceiros de jornada como Berg e Bela, Maria Mariana, Gabriel, Elma, Taiane Nascimento, Oziel, Robson, Marcos, Lilian, Jefferson e Cynthia, Leo e Hila, Mona, Romário, Scooby, André, DJ Leo, Jamaiquinha e Marcelo, entre outros.
Nem tudo foram flores: um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi quando ouviu de uma pessoa do meio que ela "não poderia dar aulas por ser muito nova". O comentário a abalou na época, mas serviu de combustível. Logo após o episódio, os convites para grandes eventos se multiplicaram.
Hoje, cruzando oceanos para ensinar o mundo a dançar, a menina que saiu do interior da Bahia resume sua história com uma força impressionante:
“A lambada vive!”. E se pudesse enviar um recado para a garotinha itabelense do passado, ela diria sem hesitar:
“Que bom que você não desistiu!”.